domingo, 27 de dezembro de 2009

Pato Selvagem - por Júlia Masson

Ivan Kraut - um pato selvagem

As águas de março há tempo tinham anunciado o verão. E para não nos esquecermos da promessa de vida, elas caíam sobre a cidade lavando e trazendo a esperança.
Foi assim, num dia em que a chuva se anunciara, que ele chegou...
Cabelo de cachos soltos despenteados pelo vento.
Nas mãos nervosas, um enorme guarda chuva preto.
Os pés calçavam um sapato que brigava com o moleton e a camisa, ambos devem ter saído do armário para aquele compromisso, talvez pensando em dar um ar sério.
Um olhar que parecia investigar...
Um sorriso que não se abria...
Ao ser anunciado, levantou-se.
Pequeno... as pernas tortas... o andar com os pés voltados para dentro fazia o corpo gordinho gingar lembrando um pato que se esforçava para locomover-se em terra...
Era um professor participando de num processo seletivo. Eu, a coordenadora que o entrevistaria.
Formação? Matemática!
Experiência? Nenhuma!
Porque a vaga deve ser sua? Porque aprendo rápido, se você quiser me ensinar!
E eu quis!!!
Começara o compromisso de ensinar e aprender...
Não pense que neste exercício ele foi um aprendiz tranqüilo...
Tinha rompantes de fúria, questionava...discordava...brigava...
Refletia... buscava ... reconhecia ...
Sorria! Gargalhava!!!
As horas de estudo, obrigatoriamente, passavam dos cálculos à filosofia, do raciocínio à poesia, da metodologia à canção, da avaliação ao Divino...
Era intenso nas relações com os seus alunos. Explicava com tamanho empenho que não concebia alguém dizer que não entendera. Tornava-se impotente e ranzinza... não compreendia que o ritmo não era o dele, e sim o do aluno...
Numa destas crises, surgiu sua marca registrada na escola... Aleluia!!!!
Sua voz reverberava pela escola quando alguém superava a dificuldade e compreendia o conceito matemático trabalhado... era um cântico de louvor... por ele e pelo aluno!!
Nossa relação se estreitava...
Quando ele, da minha porta se aproximava, eu reconhecia pelo som dos seus passos qual rompante viria... muitas vezes eu só ouvia...
Era uma expectadora do seu texto...era o monólogo do professor em fúria...
Noutras era uma poesia pra alegrar o meu dia...noutras era canção entoada, um hino matinal!!!
Como dissera na entrevista... ele aprendia rápido...fazia com excelência o que há pouco desconhecia...
Feito pato selvagem, rápido no seu desenvolvimento e conhecedor do tempo da migração, ele anunciou sua partida...
Num rompante adentrou a minha sala, ajoelhou-se aos meus pés... eu nada falei... fui expectadora de um monólogo do professor agradecido por eu ter aceito ser sua professora...
Chorei...Choramos abraçados os cinqüenta minutos, tempo que durava a aula!
Eu compreendi o ritmo que regia sua migração.... aquele ritmo não era o meu...
Ele se foi...
As águas de março que fecharam o verão, deixaram-no como uma promessa vívida no meu coração...
Ele saiu da escola. Nunca da minha vida!!!
Pato selvagem aguardando o tempo da migração... as pernas tortas...
Devia ser mesmo difícil caminhar nesta Terra...


Júlia Masson 

Um comentário:

  1. Realmente um professor maravilhoso! Já me ensinou matemática por telefone! Um dia conto aqui...

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